Avaliação do número de passagens sobre a qualidade de células somáticas derivadas de gato-do-mato-pequeno (Leopardus tigrinus Schreber, 1775)
Yara Letícia Frutuoso E Silva
UFERSA
João Vitor da Silva Viana
Luanna Lorena Vieira Rodrigues
Universidade Federal Rural do Semi-Árido
Antônia Beatriz Mendonça Pereira
Universidade Federal Rural do Semi-Árido
Alexsandra Fernandes Pereira
Universidade Federal Rural do Semi-Árido
Palavras-chave: Conservação, Cultivo in vitro prolongado, Passagens
Resumo
Metodologias de conservação ex situ in vitro têm sido fundamentais para a conservação de felídeos silvestres, tais como o gato-do-mato-pequeno. Neste contexto, células somáticas de alta qualidade são essenciais para formação de biobancos, visando o conhecimento da espécie, medicina regenerativa e reprodutiva. Contudo, nas mais diversas espécies de felídeos silvestres, essas células têm se demonstrado susceptíveis aos danos do cultivo in vitro. Portanto, o objetivo foi avaliar o efeito do número de passagens sobre a qualidade de células somáticas de gato-do-mato-pequeno após a terceira, sétima e décima primeira passagem (CEUA/UFERSA: no. 20/2023 e ICMBio: no. 88201-1). Para tanto, fragmentos de pele oriundos de quatro indivíduos adultos mantidos em zoológicos foram cultivados em meio essencial mínimo modificado por Dulbecco acrescido de 10% de soro fetal bovino, 2% de solução de antibiótico-antimicótico a 38,5 °C e 6,5% de CO2. Após a obtenção de células, fragmentos foram removidos e as células mantidas em cultivo para avaliações nas diferentes passagens (3ª, 7ª e 11ª) quanto à morfologia, viabilidade com azul de tripan, metabolismo com o ensaio de 4,5-dimetiltiazol2yl)-2,5-difenil brometo de tetrazolina, atividade proliferativa e níveis apoptóticos com laranja de acridina e brometo de etídio. Os dados foram analisados por ANOVA seguido de teste Tukey ou teste t não-pareado (P < 0,05). Quanto à morfologia, células demonstraram alterações de tamanho do citoplasma e número de prolongamentos na 11ª passagem, enquanto nas 3ª e 7ª passagem elas demonstraram núcleo centralizado, formato fusiforme com prolongamentos. Nenhuma diferença foi observada entre as passagens para a viabilidade avaliada por azul de tripan, apresentando valores superiores a 85%. Contudo, o metabolismo celular foi reduzido de 91,2% ± 5,2 na 3ª passagem para 56,0% ± 2,9 após a 7ª passagem e 22,8% ± 3,8 após a 11ª passagem (P < 0,05). Quanto à atividade proliferativa, foi obtido nas 3ª e 7ª passagem um tempo de duplicação de 40 h. Ainda, nessas passagens foram visualizadas curvas de crescimento com distintas fases de adaptação, crescimento, estabilidade e morte celular. Todavia, a atividade proliferativa das células ao atingir a 11ª passagem foi alterada, onde apenas um animal apresentou um tempo de duplicação de 85 h. Adicionalmente, não foram observadas diferenças nos níveis apoptóticos com o aumento do tempo de cultivo. As células apresentaram-se viáveis (3ª passagem: 98,7% ± 0,4; 7ª passagem: 91,4% ± 3,3; 11ª passagem: 74,5% ± 13,6), com um percentual gradativamente inferior nos estágios de apoptose inicial (3ª passagem: 0,8% ± 0,2; 7ª passagem: 5,5% ± 2,3; 11ª passagem: 5,5% ± 2,3), apoptose tardia (3ª passagem: 0,3% ± 0,1; 7ª passagem: 2,0% ± 0,7; 11ª passagem: 6,8% ± 4,1) e necrose (3ª passagem: 0,3% ± 0,1; 7ª passagem: 0,9% ± 0,5; 11ª passagem: 3,2% ± 1,8). Em conclusão, embora o cultivo prolongado de células somáticas de gato-do-mato-pequeno não resulte em efeitos sobre a viabilidade e níveis apoptóticos, é notável que este ocasiona reduções no metabolismo, proliferação celular e morfologia. Portanto, novas condições e/ou suplementações de meios de cultivo devem ser testadas visando conservar os parâmetros metabólicos e proliferativos das células.