A Literatura Indígena no ensino de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Ceará
Iracema como poética de genocídio e expropriação
luciely Cavalcante
Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA)
Larissa Costa da Mata
Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA)
Palavras-chave: Iracema, Literatura indígena brasileira, Ensino superior, Etnocídio, Poética da expropriação
Resumo
A seguinte pesquisa reflete sobre o progresso do ensino de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Ceará (UFC) entre as décadas de 1990 e a primeira década de 2000 junto às suas abordagens da cultura e da literatura dos povos originários, estimuladas pela criação de leis e por projetos governamentais. O curso de Letras da UFC foi fundado com base em um modelo de ensino de literatura da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Brasil (atual UFRJ) e conta com professores formados nessa tradição, entre eles o ex-docente de Literatura Brasileira Adriano Espínola. Esta pesquisa é composta por meio de levantamento biobibliográfico dos docentes e de documentos como atas de reuniões de departamento, PPCs antigos, planos de curso, ementas de disciplinas e publicações científicas dos docentes. Neste estudo, buscamos analisar a presença do genocídio indígena e da poética da expropriação que está presente no período do romantismo brasileiro (especialmente, em Iracema, 1865, de José de Alencar), à luz das considerações de Espínola em seu livro O cego e o trapezista: ensaios de literatura brasileira (2022) e de Ellen Lima Wassu (2025), escritora indígena contemporânea. Conforme Wassu, a poética da expropriação desvincula o indigena do seu território e da terra para seguir um padrão eurocêntrico e estético que o afasta da natureza para o adequar a um conceito de “humanidade” aceito socialmente. Personagens como Iracema, são esboçados segundo uma poética genocida, que os condena ao desaparecimento ou à degradação (Espínola, 2022), cristalizando socialmente uma ideia de que os povos originários teriam se tornado “fragmentos” e “heranças de um passado” (Wassu, 2025). Tomamos como contraposição a essa visão a perspectiva de Ailton Krenak no seu livro Ideias para adiar o fim do mundo (2019). O autor discute, entre muitos temas, a diferença de sentidos do termo território: para os colonizadores, é percebido somente como mercadoria; para os indígenas é uma extensão do corpo, parte da família. Até o presente momento, as ementas de literatura brasileira de 2007, com a presença exclusivamente de obras canônicas, como Iracema, e os textos do professor Espínola nos fizeram ponderar sobre como a perspectiva ocidental do colonizador, contraposta à cosmologia de ligação ao território dos povos originários, reflete em uma poética genocida e de expropriação presente no período romântico da nossa literatura.
Biografia do Autor
Larissa Costa da Mata, Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA)
Possui graduação em Letras-Inglês pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mestrado em Literatura Brasileira pelo Programa de Pós- Graduação em Literatura da UFSC, doutorado em Teoria da Literatura pela mesma instituição. Realizou pós-doutorado em Literatura Brasileira junto à Universidade de São Paulo (USP) com bolsa de Pós-Doutorado Júnior do CNPq. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira e Teoria Literária, atuando principalmente nos seguintes temas: artes plásticas, Flávio de Carvalho,Maria Martins, Mário de Andrade, Adalgisa Nery, autobiografia, primitivismo vanguardista, estudos da cultura, literatura brasileira contemporânea.