Avaliação bioquímica de asininos submetidos à perda sanguínea aguda
Filipe Lima Costa
UFERSA
Paulo Ricardo Firmino
Moises Barbosa da Cruz
José Felipe Napoleão Santos
Raimundo Alves Barreto Junior
Palavras-chave: anemia, Jumento, marcadores séricos
Resumo
O presente estudo teve como objetivo principal avaliar as alterações bioquímicas decorrentes da perda sanguínea aguda em asininos (Equus asinus). Os asininos desempenham um papel relevante em regiões rurais, especialmente no Nordeste brasileiro, devido à sua rusticidade e resistência. Contudo, há uma notável escassez de estudos sobre as respostas fisiológicas e bioquímicas dessa espécie frente a condições críticas, como a hemorragia aguda, tornando a compreensão desses mecanismos essencial para subsidiar condutas clínicas e de manejo apropriadas. As informações clínicas disponíveis para os asininos são, em grande parte, extrapoladas de estudos com equinos. A metodologia do estudo envolveu seis asininos machos, não castrados, considerados hígidos após avaliação clínica completa e exames hematológicos. Os animais tinham um peso corporal médio de 139,5 ±18,1 kg e idade média de 5,9 ±1,5 anos. Os indivíduos foram submetidos a um protocolo de indução de perda sanguínea aguda, correspondente à remoção controlada de 30% da volemia total, estimada em 8% do peso vivo. O procedimento de flebotomia da veia jugular levou, em média, 58 ± 8,3 minutos, resultando na retirada de aproximadamente 3346 ± 436 ml de sangue por animal. Em equinos, uma perda sanguínea desse percentual é considerada suficiente para desencadear choque hipovolêmico. O acompanhamento bioquímico estendeu-se por um período de 32 dias, com coletas de sangue realizadas em 11 momentos pré-determinados, do pré-sangria (T0) até o 32º dia (T32d). Foram determinados os valores séricos de proteína total (PT), albumina, ureia, creatinina, gama-glutamiltransferase (GGT), aspartato aminotransferase (AST), glicose e lactato. A remoção dos 30% da volemia resultou em alterações bioquímicas significativas. Observou-se uma queda significativa nos valores de proteína total já na primeira hora (T1) após a sangria, mas a recuperação para os níveis pré-hemorragia ocorreu em 16 dias (T16d). Apesar disso, os níveis de albumina se mantiveram estáveis, o que pode ser explicado pelo aporte dessa proteína via circulação linfática. A concentração de glicose apresentou elevação significativa nos tempos T1 e T6, retornando aos níveis basais em T12 horas, sendo essa hiperglicemia possivelmente associada a uma resistência insulínica transitória induzida pelo estresse fisiológico da hemorragia aguda. Os níveis de lactato também se elevaram significativamente no T1, mas retornaram aos valores basais já no T6, sugerindo que, apesar da hemorragia grave, o metabolismo aeróbico foi mantido. Os valores de ureia e creatinina, bem como os de AST e GGT, permaneceram estáveis, indicando que a hemorragia aguda de 30% da volemia não ocasionou lesões renais ou hepáticas. Em conclusão, a indução controlada de hemorragia evidenciou modificações significativas nos parâmetros de proteína total, glicose e lactato nas primeiras horas após o evento, com posterior tendência à recuperação gradual. Os resultados destacam que, embora os asininos possuam mecanismos compensatórios eficazes, a magnitude e duração das alterações bioquímicas indicam que perdas volêmicas acentuadas representam um risco expressivo à homeostase. Os achados reforçam a importância da avaliação temporal desses indicadores bioquímicos e fornecem uma base para protocolos de diagnóstico, monitoramento e tratamento em casos clínicos de hemorragia aguda nessa espécie.