Avaliação hemogasométrica de asininos submetidos à perda sanguínea aguda
Rayara Silva de Freitas
UFERSA
José Felipe Napoleão Santos
Paulo Ricardo Firmino
Talyta Lins Nunes
Raimundo Alves Barreto
Palavras-chave: Transfusão de sangue, Resposta fisiológica, Equidae
Resumo
Os asininos (Equus asinus) compartilham ancestralidade com os equinos, mas apresentam trajetória evolutiva e adaptações distintas, sendo historicamente desenvolvidos em ambientes semiáridos. No Nordeste brasileiro, destacam-se pela rusticidade e resistência, sendo amplamente utilizados em atividades de tração e transporte, especialmente por famílias de baixa renda. Assim como outras espécies de tração, os asininos estão sujeitos a traumas e hemorragias, podendo evoluir para choque hipovolêmico. Perdas de 25 a 35% do volume sanguíneo total estão associadas a manifestações clínicas importantes, enquanto perdas acima de 40% podem ser fatais. A hemogasometria é uma ferramenta essencial para avaliar o equilíbrio ácido-base e os gases sanguíneos, sendo útil no monitoramento das respostas fisiológicas frente à perda aguda de sangue. O presente estudo teve como objetivo avaliar as respostas hemogasométricas de asininos submetidos à perda de 30% da volemia, seguida de transfusão homóloga. O experimento foi aprovado pela CEUA sob parecer nº 32/2023 e realizado com seis asininos machos, adultos, não castrados, com peso médio de 139,5 ± 18,1 kg e idade média de 5,9 ± 1,5 anos. Após 30 dias de adaptação, os animais foram submetidos à exsanguinação equivalente a 30% da volemia total, estimada em 8% do peso corporal. A coleta foi feita por punção da veia jugular com cateter 14G acoplado a bolsa coletora, por gravidade, com volume médio de 3.346 ± 436 ml e duração média de 58 ± 8,3 minutos. As amostras foram analisadas em gasômetro OMNI C (Roche Diagnostics) nos tempos T0 (pré-exsanguinação), T1, T6, T12, T24, T48, T72, T8d, T16d, T24d e T32d, avaliando pH, pO₂, pCO₂, SO₂ e HCO₃⁻. Os dados foram submetidos a análise de variância (GLM) com teste de Bonferroni (p < 0,05). Não houve diferenças significativas (p > 0,05) nos valores de pH, pO₂, pCO₂, SO₂ e HCO₃⁻ entre os tempos avaliados. A estabilidade dos parâmetros indica que os mecanismos compensatórios foram eficientes para restaurar o equilíbrio ácido-base após a hemorragia, mesmo diante da perda de 30% da volemia. Essa recuperação pode estar relacionada à rápida redistribuição de fluidos e aos ajustes respiratórios e metabólicos que mantêm a homeostase gasométrica. Assim, a retirada de 30% do volume sanguíneo total mostrou-se segura em asininos hígidos, sem provocar alterações gasométricas significativas. Conclui-se que volumes de até 24 mL/kg podem ser coletados com segurança de animais saudáveis destinados à doação de sangue, uma vez que as alterações fisiológicas decorrentes da exsanguinação são mínimas e reversíveis em curto prazo.