RAÇA, DESIGUALDADE E SAÚDE MENTAL: EVIDÊNCIAS SOBRE A VIOLÊNCIA AUTOPROVOCADA NO NORDESTE BRASILEIRO (2019–2023)
Emerson Santana da Silva
UFERSA
Fábio Chaves Nobre
João Mario Pessoa Júnior
Palavras-chave: Violência autoprovocada, Desigualdade racial, Determinantes da saúde, Saúde mental, Nordeste brasileiro
Resumo
A violência autoprovocada constitui um problema de saúde pública global, cuja expressão está fortemente associada a determinantes sociais, econômicos e raciais. No contexto brasileiro, marcado por um legado histórico de escravidão e por desigualdades estruturais persistentes, as condições de vida e o acesso desigual aos serviços de saúde acentuam as vulnerabilidades, especialmente entre populações negras e pardas. O presente estudo teve como objetivo analisar a distribuição e os determinantes raciais das notificações de violência autoprovocada no Nordeste do Brasil, entre 2019 e 2023. Trata-se de um estudo descritivo transversal, com dados provinientes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), a partir das fichas de notificação de violência interpessoal/autoprovocada. Para análise estatística, aplicou-se o teste de Kruskal-Wallis, seguido do post-hoc de Dunn, a fim de identificar diferenças significativas entre os grupos raciais. Os resultados indicaram maior prevelância de violência autoprovocada entre mulheres (73,33%) e indivíduos pardos (76,06%). Verificou-se que pessoas pretas e pardas apresentaram menores níveis de escolaridade e maior associação a condições de vulnerabilidade social, com repercurssões diretas sobre o acesso e continuidade do cuidado em saúde mental. A residência foi o principal local de ocorrência das autoagressões (83,16%), enquanto que indivíduos pretos apresentaram maior proporção de casos em vias públicas (5,69%), além de maior uso de métodos mais letais e maior frequência no consumo de álcool (14,79%). Conclui-se que os fatores raciais e os determinantes sociais da saúde exercem influência na incidência de violência autoprovocada, evidenciando desigualdades estruturais no território nordestino. Os achados reforçam a necessidade de políticas públicas intersetoriais e antirracistas, voltadas à reduação das desiguadades raciais e à ampliação do acesso à saúde mental, com foco na equidade e justiça social.