Função do canto defensivo de Hemidactylus agrius

Arthur Vinicius Caetano de Oliveira

UFERSA

https://orcid.org/0009-0000-0153-8708

Daniel Cunha Passos

Universidade Federal Rural do Semi-árido

https://orcid.org/0000-0002-4378-4496

Alice Almeida Silva

Universidade Federal Rural do Semi-árido

https://orcid.org/0000-0002-8389-8201

Palavras-chave: Comportamento animal, ecologia comportamental, sinal acústico, comunicação sonora, lagartos


Resumo

A lagartixa Hemidactylus agrius Vanzolini, 1978 é uma espécie noturna, comum na região nordeste do Brasil. Recentemente, esta espécie teve suas vocalizações defensivas descritas, revelando uma rica diversidade de cantos. É sabido que cantos defensivos podem ter diferentes funções, como surpreender o predador (canto de alerta), ou informar coespecíficos da presença de uma ameaça (canto de alarme). Contudo, evidências empíricas sobre a funcionalidade das emissões defensivas em lagartos são escassas. O objetivo deste estudo foi inicialmente a elaboração de um etograma para caracterizar o repertório comportamental de H. agrius e, em seguida, avaliar a reação de indivíduos a cantos defensivos de coespecíficos, testando a hipótese de que estas vocalizações desempenham função de alarme. Para elaboração do etograma, coletamos 20 indivíduos de H. agrius manualmente por meio de buscas ativas no município de Mossoró-RN. Os espécimes foram alocados individualmente em terrários de vidro enriquecidos ambientalmente com galhos e cascas de árvores. Os animais foram mantidos em cativeiro por um período de habituação de 24h. Então, entre as 24h e 48h, foram realizados ensaios comportamentais, que consistiram no registro de todos os comportamentos realizados pelos indivíduos-alvo durante uma hora pelo método de animal focal. Para os testes de funcionalidade dos cantos, foram coletados outros 13 indivíduos, que foram alocados ao mesmo padrão de recinto e à mesma habituação citada anteriormente. Entre 24h e 48h, estes indivíduos-alvo foram submetidos à escuta aleatorizada de três playbacks, durante uma hora. Os playbacks consistiram em gravações de 15 minutos contendo diferentes estímulos sonoros, a saber: cantos defensivos de H. agrius (tratamento lagarto), ruídos brancos (controle negativo) e sons de predadores (controle positivo). Cada indivíduo foi submetido aos playbacks uma única vez, à noite, e todos foram devolvidos à natureza após as observações. Os ensaios foram gravados com iluminação infravermelha e posteriormente analisados quanto a frequência e duração dos comportamentos. Todos os procedimentos amostrais foram vinculados à licença de coleta do ICMBio (licença #57169-4) e ao protocolo de experimentação animal aprovado pela CEUA-UFERSA (parecer 16/2024). Ao todo, foram registrados oito comportamentos para H. agrius (Deslocamento no solo, Deslocamento empoleirado, Salto, Imóvel, Repouso, Uso de abrigo, Lambida no focinho e Lambida na cauda). Entre os atos comportamentais, a lambida na cauda foi o mais frequente (61%) e o salto, o mais raro (7%). Entre os estados comportamentais, os resultados revelaram que H. agrius tem hábitos predominantemente sedentários, passando a maior parte do tempo imóvel (44,68% do tempo ativo), e que consitui uma espécie primariamente arborícola, se deslocando prioritariamente sobre substratos elevados (30,58% do tempo em atividade), tais como troncos e galhos. Quanto aos comportamentos diretamente associados à defesa, como ficar imóvel (imobilidade tônica - F3,44=1,06; p=0,37) e deslocamento empoleirado (exploração - F3,44=0,15; p=0,93), não houve diferença estatística na duração destes comportamentos entre os tratamentos. Estas evidências não suportam a hipótese do canto de alarme para as vocalizações defensivas de H. Agrius, implicando que estes cantos emitidos em contexto anti-predatório podem desempenhar outras funções (canto de alerta ou atração de predadores secundários) ou mesmo constituir meras vocalizações de agonia.