Cartão-postal ameaçado? Levantamento da flora angiospérmica herbácea da Área de Proteção Ambiental Jenipabu e suas implicações para conservação da flora do Rio Grande do Norte

Adrielly Erica da Silva Araújo

Mariana Barbosa Pinto

James Lucas da Costa-Lima

Universidade Federal Rural do Semi-Árido

https://orcid.org/0000-0002-2967-5322

Palavras-chave: Conservação, Florística, Vegetação de Restinga


Resumo

O Brasil se destaca, dentre os países das àreas tropicais do globo, por sua notável biodiversidade vegetal, com o registro de cerca de 46.975 espécies de plantas, das quais 42% são endêmicas. Abrigar esta riqueza impõe desafios à conservação e levou o país a assumir compromissos internacionais, como os da Convenção sobre Diversidade Biológica e da Estratégia Global para Conservação de Plantas, resultando em iniciativas amplas e integradas como o projeto “Flora do Brasil 2020”, o “Livro Vermelho da Flora do Brasil” e a “Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção”. Apesar desses avanços, ainda persistem lacunas regionais no conhecimento da flora, sobretudo das espécies herbáceas. O Rio Grande do Norte exemplifica essa carência, pois, embora apresente heterogeneidade de formações vegetais costeiras, sua flora permanece pouco documentada e vulnerável à urbanização e à pressão turística. Nesse cenário, a Área de Proteção Ambiental Jenipabu (APAJ), localizada entre os municípios de Natal e Extremoz, destaca-se como um mosaico de ecossistemas de alta relevância ecológica, como dunas costeiras, tabuleiros litorâneos, restingas, manguezais e praias, cuja flora herbácea ainda é pouco documentada. A fim de sanar essa carência, estes estudo teve como objetivo realizar um inventário florístico das angiospermas herbáceas da APAJ, propondo-se a preencher lacunas de conhecimento taxonômico e fornecer subsídios técnicos à conservação da flora regional. As coletas na área de estudo foram realizadas por meio de expedições de campo conduzidas em dezembro de 2023 e nos meses de março e agosto de 2024, complementadas pela análise de dados provenientes dos repositórios digitais SpeciesLink e Herbário Virtual REFLORA, bem como na análise de amostras coletadas e depositas no Herbário MOSS. Como resultados, recuperamos 273 espécies nos repositórios virtuais e analisamos 88 espécimes depositados no MOSS provenientes da APAJ. Ao todo, 170 espécies de plantas herbáceas foram registradas, demonstrando a expressiva riqueza da vegetação de restinga. Os gêneros mais ricos em espécies foram Cyperus, com 9 espécies, seguido de Utricularia (7 spp.), Chamaecrista (6 spp.), Paepalanthus (5 spp. ) e Turnera (4 spp.). Três espécies constam na lista oficial de plantas ameaçadas: Cattleya granulosa (como Vulnerável), incluída também na Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e da Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES); Griffinia gardneriana (Em Perigo); e Melocactus violaceus  (Vulnerável), igualmente listada na CITES. Essas ocorrências reforçam a importância da APAJ como refúgio e área prioritária para a conservação da flora ameaçada do litoral do Rio Grande do Norte. Os resultados demonstram que a APAJ exerce papel estratégico não apenas na preservação da diversidade vegetal existente, mas também como potencial área de recolonização de táxons raros e ameaçados. O estudo contribui para reduzir lacunas no conhecimento florístico regional e oferece bases técnicas essenciais ao melhor planejamento de políticas públicas voltadas à conservação da biodiversidade costeira, especialmente quanto à conservação da flora.