Estudo de uréia revestida com biochar para o desenvolvimento de um fertilizante nitrogenado com eficiência melhorada
Letícia Costa da Silva
Universidade Federal Rural do Semi-Árido
Frederico Ribeiro do Carmo
Poliana Pinheiro da Silva
Daianni Ariane da Costa Ferreira
José Maycon Aires dos Santos
Palavras-chave: liberação controlada, carnaúba, eficiência do uso de nitrogênio
Resumo
A crescente demanda global por alimentos mantém a pressão sobre o setor agrícola, que
depende fortemente da ureia como fonte de nitrogênio. Apesar do baixo custo e do elevado teor
do nutriente, sua eficiência agronômica é limitada por perdas por volatilização, lixiviação e
desnitrificação, com reflexos ambientais e econômicos (Mariano et al., Atmospheric
Environment,203:242–251, 2019; Li et al., Agriculture, Ecosystems & Environment, 251:78–87,
2018). Com o intuito de identificar alternativas capazes de minimizar tais perdas, foi conduzido
um estudo bibliométrico (2018–2025) sobre o tema e sua relação com sistemas de liberação
controlada. O panorama obtido revelou crescimento consistente das pesquisas, com destaque
para revestimentos biodegradáveis, como biopolímeros e lignina, e para o uso de materiais
carbonosos como carreadores multifuncionais (Fertahi et al., Journal of Controlled Release,
331:341–356,2021). Observou-se predominância de grupos de pesquisa da China e dos
Estados Unidos e concentração de publicações em periódicos de alto impacto, com foco na
eficiência do uso de nitrogênio, produtividade e sustentabilidade (Aria & Cuccurullo, Journal of
Informetrics, 11:959–975,2017). Nesse contexto, resíduos lignocelulósicos convertidos por
pirólise vêm se destacando por reter nutrientes e água e por atuarem como sequestradores de
carbono (Jia et al., Science of the Total Environment, 731:139220,2020). Considerando essas
propriedades, desenvolveu-se um material experimental obtido a partir da palha de carnaúba
(Copernicia prunifera), abundante no semiárido nordestino. Foram preparadas pastilhas nas
formulações: ureia + biochar; ureia + biochar + amido seco; e ureia + biochar + solução de
amido. As amostras foram caracterizadas por Espectroscopia no Infravermelho por
Transformada de Fourier (FTIR) e Microscopia Eletrônica de Varredura (MEV) e submetidas a
ensaios de dissolução em água. Os resultados indicaram que o material carbonizado,
isoladamente, não confere estabilidade estrutural às pastilhas, que se desagregam em poucas
horas de imersão. Entretanto, a incorporação de amido de milho, especialmente na forma seca,
proporcionou maior coesão e resistência, resultando em liberação mais lenta do nutriente (Ge
et al., International Journal of Molecular Sciences, 23:7422,2022). As análises de FTIR,
realizadas no Núcleo de Pesquisa em Economia de Baixo Carbono (NPCO₂/UFERSA), não
evidenciaram formação de novos compostos, mas apontaram interações intermoleculares entre
os constituintes, coerentes com o ganho de integridade observado. As micrografias obtidas por
MEV revelaram diferenças marcantes: a ureia pura apresentou cristais lisos e compatíveis com
sua rápida solubilização; o material carbonizado exibiu superfície rugosa e porosa; e a
formulação contendo amido seco mostrou matriz compacta e homogênea, confirmando o papel
do polímero como agente ligante e explicando a dissolução mais lenta (Ke et al., Agriculture,Ecosystems & Environment, 265:402–412, 2018). A proporção ureia + biochar (1:4) + amido
seco destacou-se como a mais promissora, apontando um caminho viável para aumentar a
eficiência de uso do nitrogênio e reduzir impactos ambientais. Para consolidar esses achados,
é necessário avançar para a produção em maior escala e realizar ensaios de volatilização de
amônia em câmara SALE, conduzidos em casa de vegetação, etapa essencial para quantificar
os ganhos sob condições controladas (Araújo et al., Pesquisa Agropecuária Brasileira, 44:769
776, 2009).